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Os irmãos Ronivaldo Rocha dos Santos, de 40 anos, e Evangelista Rocha dos Santos, de 34 anos, presos por decepar as mãos da jovem Ana Clara de Oliveira, de 21 anos, com golpes de foice, foram denunciados nesta quinta-feira (14), pelo Ministério Público do Ceará, por tentativa de feminicídio.
O crime ocorreu na madrugada do dia 1º de maio, na cidade de Quixeramobim, no interior do Estado. A confusão foi registrada por câmeras de segurança.
Segundo a denúncia do MPCE, feita pela pela promotora de Justiça Juliana Santos, da 2ª Promotoria de Justiça de Quixeramobim, Ana Clara e Ronivaldo conviviam em união estável por dois anos, em um relacionamento conturbado, com discussões e agressões físicas.
No dia do crime, o casal começou a discutir na residência onde morava e, com a intensificação do conflito, a vítima pediu insistentemente que o companheiro saísse de casa.
“Pouco tempo depois, o companheiro da vítima voltou acompanhado do irmão, que portava uma foice, e passou a instigá-lo, dando comandos repetidos para que ele matasse a mulher. Diante disso, o cunhado da vítima desferiu golpes de foice contra ela, causando-lhe múltiplas lesões e decepando as mãos dela. As agressões só pararam quando ela desfaleceu e os dois irmãos fugiram do local”, disse o Ministério Público.
Ana Clara foi socorrida após vizinhos ouvirem gritos de pedido de socorro e acionarem a Polícia e uma ambulância. Ela foi submetida a uma cirurgia de emergência de reimplante das mãos no mesmo dia e está em processo de recuperação.
Evangelista, cunhado da vítima, foi preso no dia seguite, em uma casa em Quixeramobim. No local, os agentes apreenderam uma foice, roupas e um chinelo, todos com manchas de sangue. Já Ronivaldo, foi localizado e preso na residência de familiares, no município de Madalena.
Investigações da Polícia Civil apontaram que Ronivaldo tinha profundo sentimento de objetificação e posse sobre Ana Clara, que era tratada por ele “como verdadeira extensão de sua vontade e domínio”.
Além disso, ele e o irmão acreditavam que a violência era uma forma de impor à mulher “submissão e respeito” aos investigados.
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Irmãos presos por decepar mão de mulher com foice planejaram fugir: ‘Tenho que sumir do mapa’ — Foto: Reprodução
Diálogos obtidos pela Polícia Civil após a quebra de sigilo dos telefones dos dois, autorizada pela Justiça, mostram que Evangelista pediu dinheiro ao irmão para fugir e foi repreendido pelo mais velho pela violência empregada contra a jovem. “Era só ter dado umas mãozadas nela pra ela respeitar as cara”, completou Ronivaldo.
Por volta de 2h da manhã, Evangelista disse: “Manda só mil reais que vou sumir”. Ronivaldo então respondeu com um áudio: “A culpa toda vai subir pra mim. Eu que tenho que sumir do mapa, [tu] se faz de doido é? Loucura que tu fez isso aí, era só ter dado umas mãozadas nela pra ela respeitar as cara […] Como é que vou mandar [dinheiro], se tudo vai sobrar é pra mim”.
Posteriormente, Evangelista solicita que Ronivaldo vá à sua casa buscar um caderno, mas não há informações se o mais velho fez a transferência de dinheiro solicitada. Evangelista foi preso ainda no dia 1º de maio, por volta de 10h30, em casa, em Quixeramobim.
Já Ronivaldo, que disse que precisava “sumir do mapa”, foi preso por volta das 13h na cidade de Madalena, a cerca de 63 quilômetros do local do crime. Após a prisão, ambos foram conduzidos à Delegacia de Quixeramobim, onde foram autuados por tentativa de feminicídio. Atualmente, eles estão em um presídio em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza.
No relatório de indiciamento contra os irmãos, a Polícia Civil afirmou que o diálogo sobre a fuga demonstrava que Ronivaldo não tinha preocupação “com a condição da vítima brutalmente mutilada, mas exclusivamente com as consequências penais que recairiam sobre ele próprio”.
A investigação apontou que, na noite do crime, Ana Clara e Ronivaldo ingeriram bebida alcoólica e iniciaram uma discussão. Em determinado momento da discussão, Ronivaldo decidiu sair de casa, no que Ana Clara acertou o carro dele com uma pedra.
A discussão continuou no meio da rua e foi captada por imagens de câmeras de segurança. As imagens também mostram Ronivaldo correndo atrás de Ana Clara. Depois, ele desiste e vai embora. Cerca de 20 minutos depois, ele volta de carro, já com o irmão, Evangelista (veja vídeo no início da reportagem).
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Quando Ronivaldo e Evangelista chegam, o último sobe o muro da casa de Ana Clara. Ronilvado entrega a foice para o mais novo, que se aproxima da janela onde a vítima estava e pede para ela abrir e conversar.
Quando Evangelista entra, começam os ataques. Conforme os autos do processo, no primeiro golpe a mão direita já foi decepada. Os golpes seguintes fizeram com que a mão esquerda ficasse semi-amputada, além de deixar cortes profundos em outras partes do corpo, como ombro, perna e cotovelo.
Ana Clara foi socorrida após vizinhos ouvirem gritos de pedido de socorro e acionarem a Polícia e uma ambulância. Ela foi submetida a uma cirurgia de emergência de reimplante das mãos no mesmo dia e está em processo de recuperação.
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Investigação da polícia apontou que Ronivaldo Rocha, de 40 anos, matinha sentimento de posse sobre Ana Clara, de 21 anos, com quem se relacionava há cerca de dois anos. — Foto: Reprodução.
Apesar dos golpes de foice terem sido executados por Evangelista, a Delegacia Municipal de Quixeramobim sustenta que Ronivaldo também é culpado pela tentativa de feminicídio uma vez que não só foi buscar o irmão para executar o crime, como chegou a entregar a foice que ele usou e, em determinado momento, chegou a gritar para Evangelista: “Pode matar ela, pode matar”.
Ainda segundo a Polícia Civil, “a conversa mantida entre os investigados evidencia que, mesmo acreditando ter causado a morte de Ana Clara, em nenhum momento houve qualquer manifestação de arrependimento, socorro ou preocupação humanitária com a integridade física da vítima”.
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Câmeras de segurança captaram discussão entre Ana Clara, que teve as mãos amputadas, e o companheiro dela, Ronivaldo Rocha, suspeito do crime — Foto: Reprodução
Conforme os investigadores, o retorno de Ronivaldo à casa, na companhia de Evangelista, teve “inequívoco propósito feminicida e clara premeditação criminosa”. Além disso, para a Polícia, os gritos de ordem de Ronivaldo evidenciam “de maneira absolutamente inequívoca sua participação ativa como mandante da execução criminosa“.
Segundo a Delegacia de Quixeramobim, a Ronivaldo e Evangelista cometerem o crime de feminicídio tentado, com o agravante de utilização de meio cruel (foice) e recurso que dificultou ou impossibilitou a defesa da vítima. O indiciamento apresentado pela Polícia Civil agora vai para análise do Ministério Público do Ceará (MPCE), que pode apresentar uma denúncia contra os dois.
O g1 teve acesso aos depoimentos de Ronivaldo e Evangelista. O último confessou o crime e deu detalhes do que acontece, enquanto o Ronivaldo, então companheiro de Ana Clara, destacou ter ingerido álcool e não lembrar da maior parte do que aconteceu.
Segundo o relato de Evangelista, ele estava em casa, na madrugada da sexta-feira, quando Ronivaldo ligou e pediu que ele o acompanhasse à casa de Ana Clara para “conversar”. Evangelista disse que levou, por conta própria, a foice que viria a ser utilizada no crime e afirmou que “já estava na maldade”.
À Polícia Civil, Evangelista informou que os gritos do irmão o influenciaram a atacar a vítima com os golpes de foice – que a atingiram primeiro no braço e depois nos outros membros. Ele disse ainda que deixou a casa de Ana Clara por acreditar que ela tivesse morrido com os golpes.
Já Ronivaldo Rocha afirmou que a discussão com Ana Clara teria relação com as transferências bancárias que ela teria feito da conta dele para a dela, razão pela qual aparece em um dos vídeos das câmeras de segurança chamando a mulher de “ladrona”.
Na noite do crime, os dois teriam ingerido bebidas alcoólicas e, após uma discussão pelo dinheiro, ela teria quebrado um vidro do carro que ele dirigia. No resto do depoimento, porém, ele afirma não se lembrar de quase nenhum acontecimento, como o momento em que gritou “pode matar ela” para o irmão, cena captada pelas câmeras de segurança.
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Namorado e cunhado usaram foice para decepar mãos de mulher em Quixeramobim (CE) — Foto: Reprodução.
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À esquera, namorado corre atrás de Ana Clara. À direita, irmão dele escala parede para invadir residência e praticar crime — Foto: Reprodução
Entre a sexta-feira, 1º de maio, e esta segunda-feira (11), Ana Clara de Oliveira passou por três cirurgias no hospital Instituto Doutor José Frota (IJF), em Fortaleza, onde está internada desde o dia do crime. Ainda na sexta, ela foi submetida a uma cirurgia de emergência de 12 horas para reimplante da mão.
A cirurgia contou com a atuação de aproximadamente 15 profissionais, incluindo equipes especializadas em microcirurgia e cirurgia da mão. O procedimento foi considerado bem-sucedido, e o fluxo sanguíneo do organismo para a mão reimplantada voltou a acontecer. Ana Clara deixou a UTI sete dias após a cirurgia de reimplante e foi para a enfermaria.
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Ana Clara foi atacada na sexta-feira (1º). — Foto: Reprodução
Já no sábado (9), ela precisou passar por uma cirurgia após a equipe médica constatar que o dedo mindinho da mão esquerda reimplantada não estava com fluxo sanguíneo. A intervenção cirúrgica durou cerca de 8 horas.
Nesta segunda (11), ela foi submetida a uma cirurgia que já estava programada para recuperação do tendão da perna, que havia sido cortado pelos golpes de foice – além da amputação de uma das mãos e da lesão grave na outra, Ana Clara sofreu cortes profundos em outras partes do corpo, como ombro, perna e cotovelo.
Ela agora vai passar a semana em observação da equipe médica para avaliar a necessidade de possíveis intervenções cirúrgicas de transplante de pele em pontos onde tenha ocorrido necrose. Após a cirurgia de reimplante, a jovem já chegou a apresentar alguns movimentos, mas precisará fazer fisioterapia para se recuperar totalmente.
Por Redação g1 CE